E d'entre todos elles mais bebia, Ou porque o amor do vinho o obrigava; Ou porque o seu beber o merecia, Tremelicando alli se levantava, Olhando a quem primeiro brindaria; Um borrachão famoso pendurado, Trazia ao tiracolo ao esquerdo lado.
Quando a tinta lhe lançam espremida, Por aqui, por alli sair procura Com impeto e braveza desmedida; A adega brame toda co'a fervura, Bota o bagulho fóra a escuma erguida, Tal andava o tumulto levantado Entre um bebado e outro apaixonado.
Onde apenas um ao outro s'entende, Um d'elles tem a vinda em boa estrêa, Outro ás picheladas a defende; Assi que um pela infamia que recêa, E outro pelo gasto que pretende, Porfiam, arrebessam, permanecem, A quasquer seus amigos favorecem.
Affeiçoado á gente bebedana, Por quantas bebedices vira n'ella, Jantando em Alcochete uma semana. Affeiçoado vem da gente bella, Que por brazões os copos tem ufana, De quem a lingua é tal, se o copo empina, Que ora parece grega, ora latina.
Os bebados e o vinho, e nunca caso Lhe tirou por insigne ser louvado Té dos imigos d'agoa do Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão celebre nome em negro vaso D'agoa do esquecimento, se lhe chegam Os bebados insignes que navegam.
Uma gente de copo tão estranha, Pela charneca, a qual esgotaria Tudo quanto Louredo e Lagem banha; E com beberes novos venceria A todos os famosos d'Allemanha. Altamente lhe dóe perder a gloria Na taça em que de todos tem victoria.
Quando todos sem ordem respondendo, Na sentença um do outro differia, Razões diversas dando e recebendo. Mas Pero Vaz alli não consentia No que Francisco disse, conhecendo Que esqueceria um bebado eminente Se cá viesse beber aquella gente.
Na viagem tão asperos perigos, Tantos vinhos vinagres esgotados, Nas Vendas novas, nos Pegões antigos; Que sejam determino agasalhados Entre as quintas aqui de seus amigos, E enchendo cada qual a sua bota Comecem a seguir sua derrota.
Da rua das adegas celebrada, Onde vinhos lhe tem que os de Falerno, Os do Rhim, ou de Alcache tem em nada. Bem sabeis que se vem chegando o inverno, Esta gente vem sêcca e esgotada, Já parece bem feito que lhe seja Mostrada Peramanca que deseja.
E cada qual já traz seu couro leve, Pelas charnecas sêccas, não temendo Sequidão dos Pegões, a mais se atreve; Que havendo tantos já que as partes vendo Onde o copo comprido tem por breve, Inclinam seu proposito e porfia A ver os vinhos que Evora teria.
Que lá dentro em Lisboa uns alcançaram, Quando com dez Tudescos n'uma briga No nosso officio tanto se afanaram. Tambem deixo a memoria que os obriga A grande nome quando se tomaram C'um soldado Hollandez, c'um Biscainho, Quando a carga do frasco era só vinho.
A um bebado d'estes mais pequeno Sogigar Caparica e ter bebido Toda a terra que rega o Tejo ameno. Camarate lhe tem obedecido, Póvos se lhe mostrou brando e sereno; Para que é mais cansar? cousa é notoria D'Ourem e Figueiró levaram gloria.
Teve Sertorio casa e certo assento, Se do grande beber da forte gente De Baccho não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente Como é dos fados grandes certo intento Que por elles s'esqueçam Castelhanos, Flamengos, Allemães, Italianos.
Cubertos de mosquitos que voavam, Os mais bebados são agasalhados, Sem ordem nem razão se assentavam. Precedem os menores aos honrados; E assi uns pelos outros se trocavam: Quando Francisco alto assi dizendo, Com tom de voz começa grave e horrendo.
Vermelho como os raios de Vulcano; Por sceptro tinha um copo crystalino De cheiroso licor, mas não d'este anno; Da boca lhe sahia um ar tão fino, Que em vinho convertêra um tigre hyrcano; Dos ramos tinha c'rôa rutilante Em que tornou a Daphne seu amante.
Que para beber n'elles lhe foi dado, Obedecendo logo ao mandamento De um bebado tão nobre e tão honrado. Alli se acharam juntos n'um momento No bairro de Reimonde celebrado, Os da Porta d'Avis e outros onde As suas casas grandes tem o Conde.
Que em copo, frasco, taça é eminente, Se ajuntou em conselho, desejoso De dar favor a toda aquella gente. Pisando esse caminho tão famoso Da rua das adegas prestemente, Convocados da parte do entornante Por um já n'outro tempo bom tocante.
As fermosas borrachas apertando, E depois de vasias as largavam, Outras d'outro licor melhor tomando, De branca escuma os copos se mostravam Cubertos ao beber não lhe assoprando; Mas as agoas nem doces, nem salgadas D'ellas vistas não foram nem provadas.
Reparti com os pobres que o desejam; Ide largando d'elle, com intento Que seus poucos reales vossos sejam. Assi recolhereis o nosso argento, E de todos aquelles que festejam Por tal ordem a Baccho celebrado, Que costumam beber cada bocado.
Agoas de duas côres deleitosas, Quando a nossa cidade está esgotada, Inda que o gesso as faz menos gostosas; C'o licor novo espera ser tirada A reima das entranhas sequiosas, Porque esse é o que aquenta a velha idade Desterrando a agoa-pé d'esta cidade.
Reparti com os pobres que o desejam; Ide largando d'elle, com intento Que seus poucos reales vossos sejam. Assi recolhereis o nosso argento, E de todos aquelles que festejam Por tal ordem a Baccho celebrado, Que costumam beber cada bocado.
Frio, que usar de vós lhe não é dado; Pelo contrario o barbaro gentio Com desejo de ver-vos 'stá squentado; Peramanca o vermelho senhorio Vos tem s'enviuvaes apparelhado; Que pois em dar seus bens sois brando e tenro, Deseja de comprar-vos para genro.
Bom Fernando, que não me atrevo a tanto, Essa mão alargae ao vinho vosso, Dareis materia a nunca ouvido canto. Começarão a fugir d'agoa do poço Os que em vêl-a sómente tem espanto, Que em pagodes, merendas e jantares Empinar querem só de Baccho os mares.
Aquelles que na sêde gastadora Se fizeram no copo tão subidos, De Lyeo a bandeira vencedora: Um Daniel fortissimo e os temidos Lacaios, por quem sei que sempre chora Da Chamusca e Louredo o vinho forte, E outros a quem Thetis causa a morte.
Ou do Luna quereis igual memoria, Vêde primeiro a Pedro, cuja lança No beber escurece qualquer gloria; E aquelle que do enxame a segurança No copo só quiz ter, por ter victoria; Aquelle Diogo, invicto cavalleiro, Que em quatro não é quarto, mas primeiro.
Que fez a Peramanca tal serviço, Um fulano Coutinho, que de mero A borracha para elle só cubiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Uns doze que sobre um pobre chouriço Entornaram tão rijo que de cama Um monte lhes serviu d'esterco e lama.
Fantasticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: Bebedices dos vossos são tamanhas, Que excedem as sonhadas fabulosas, Que excedem ao primeiro vinhateiro, E a Baccho inda que fôra verdadeiro.
De todos os amigos de Falerno; Que não é pouco ser obedecido No estio, primavera, outono, inverno: Ouvi, vereis o nome engrandecido D'aquelles de quem sois senhor superno; E julgareis qual é mais excellente Se ser do mundo rei, se de tal gente.
Que no azamboado rosto vos contemplo, Quando fordes c'os mais d'esta cidade Offertar-vos a Baccho no seu templo: Os olhos da real bebecidade Ponde no borrachão, vereis exemplo De amor de vossos vinhos saborosos Por bebados louvados espantosos.
O bebado em se erguendo vê primeiro, Ou beba n'este nosso hemisferio, Ou beba lá n'esse outro derradeiro: E nem por isso sente vituperio O fidalgo, o estudante, o cavalleiro, Antes o Turco, o Mouro, e o Gentio Lhes pêza não beber do vosso rio.