Os vasos com que apagam as seccuras; Mostram fermosos frascos e as pendentes Borrachas que em caminhos são seguras: Os odres nas medidas differentes, Cobertos d'encouradas vestiduras: Outras borrachas trazem por aljavas, De còrno copos grandes, taças bravas.
Que não ha nem gota já na companhia, Que é tal, e no beber tem tal esp'rito, Que inda um Tejo de vinho esgotaria. Se as vasilhas quer ver como tem dito, Cumprido esse desejo te seria: Vasias as verás, que eu me obrigo Que sempre assi 'starão, s'imos comtigo.
Que Baccho em nossas terras tem visivel; Vimos correndo agora este hemispherio, Porque beber por lá não é soffrivel: E posto que sofframos vituperio, Por um largo beber tudo é soffrivel: Que melhor é vergonha em quem bebeu, Que a dôr por não soffrer q'outrem soffreu.
Viemos que entre nós nem gota havia, Quero-vos dar alguma informação De nós, em quanto o vinho lá se avia. Posto que granadino é de nação Este homem que nos serve aqui de guia, Perto está de Lisboa a patria nossa, Buscamos Peramanca amada vossa.
Do vinho os instrumentos; que não crê Que tão honrada gente alli esteja, Sem terem pelo menos agoa-pé. Mas os outros a quem nada sobeja Do licor da boa planta de Noé, Aos vendeiros pedem que alli 'stavam, Das fundagens que para si guardavam.
Com ver que não tem já de vinho nada, Com que brinde ao bebente, como é uso, Que para o receber fez tal jornada. Reprende o companheiro seu abuso, Pois sequer não deixára uma canada Para enxaugoar a boca ao que trazia Do fresco Monte-mór a alegre via.
O Mourisco com sua companhia, E dá-lhe d'azeitonas um presente, Que para tal effeito já trazia. Dá-lhe sardinha frita; salta o ardente Licor, com que elle tem tanta alegria. Tudo o Marques contente bem recebe, Mas triste está com ver que ninguem bebe.
De beber já com gentes tão ufanas, Que por charnecas sêccas caminhando, Vem a beber em terras Transtaganas. A borracha que traz vem empinando Do licor que se vende não com canas. Já chega, mas sem gota o Tridentino; E quem sem gota está é bem mofino.
As fermosas borrachas lhe mostrou Áquella gente meia atordoada, Cada qual d'elles sua vez tomou. Começa a embebedar-se a camarada, Que de fermosos frascos se adornou, Para beber com festa e alegria C'o bebedor da terra que partia.
Pelas taças de vidro crystallino; As velhas azeitonas que lhes davam Festejam mais que flôres e boninas, Da venda os taverneiros s'espantavam Do cheiro e do sabor das agoas finas, Porém a demais gente não provava O bom licor que entre esta se brindava.
Com estranha alegria não cuidada, Por acharem em terra tão remota A venda nova d'elles desejada. Disse o Mourisco alli: Venga la bota! Na castelhana lingua d'elle usada. Elles que no beber tanto se esmeram, A seu mandado logo obedeceram.
Os seus odres, deixando a companhia, D'ella e do vendeiro se apartou; Bebe cada um sua vez por cortezia; Os novos companheiros acceitou Com mostras de prazer e d'alegria, Dizendo a cada um que caminhasse, E quem beber quizesse que o tomasse.
Se d'Evora buscaes o vinho ardente, Guiando-vos irei, té que sejaes Postos em Monte-mór seguramente, Onde será bem feito que vejaes O tridentino André que é o bebente Que essa terra governa, e que vos veja, Para que d'alguns vinhos vos proveja.
É de nossa passagem certa escala, Onde ás vezes taes vinhos nós gostamos, Que acontece ficar homem sem falla. E por ser terra esteril procuramos, Cada vez que passamos, visital-a. Comem aqui e bebem tanto a pique, Que prometto que o Fuentes cedo enrique.
Estrangeiros na terra e na nação, Que os proprios são aquelles que criou A terra que sovado come o pão. A lei cega tivemos que ensinou Aquelle descendente de Abrahão, Que vinho não bebeu quente nem frio; Intendami chi può, che m'intend'io.
A terra que Louredo em torno rega, Depois que os quartos todos esgotamos Da Telha, Lavradio, Aldea-gallega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade se não nega, Quem sois, que vinho é este que buscaes, E se tendes do d'Evora alguns signaes.
Os vinhos, e as adegas temos visto, Caparica deixamos esgotado _Molto sudando nel glorioso acquisto_. E de um bebado somos tão amado, Tão querido de todos e bem quisto, Que não no largo mar com leda fronte, Mas de vinho entraremos n'uma fonte.
Com lingua onde as palavras se detinham, D'onde era o licor branco que gostavam E se vermelho entre elle tambem tinham. De Castella os marranos lhe tornavam Que si, e suas mercês de donde vinham? Disse um d'elles: De junto a Benavente, Vimos a Evora a beber sómente.
Quando o que saltou fóra já bebia; Começa de gaval-o á sua gente, Dizendo que parece malvasia. O tarverneiro então em continente Tal gente recebeu com alegria. Enchem vasos de vinho e do que deitam Os que vem e os que estão nem gota engeitam.
Outros que lhes pediam que esperassem, Porque para beber desafiavam Os mais famosos tres que alli se achavam. Vinho trazem tambem, o qual gavavam, Pedindo aos assentados que provassem: Para provar do vinho um fóra salta, Que no beber aos outros mais se exalta.
Começam a comer todos sentados, Que uns d'azeitonas vem apercebidos, Outros de uns pexinhos bem salgados. E os que de manjares vem despidos, Começam a mandar vir alhos assados, E sobre isto aos outros vão brindando, Os castelhanos vinhos festejando.
Que pipas pareciam mui compridas, Agasalha-os com festa a taverneira Por suas taças ver melhor providas, O vinho bota em vasos de madeira. Enchendo do restante as mais medidas. Senta-se á meza logo em continente, Para beber tambem com esta gente.
Uma recova d'asnos de Castella, Que gran copia de vinho lhe trazia, Que foi fermosa vista, cousa bella. Alvoroçam-se todos de alegria, Desejam já provar a causa d'ella: Que tal será o vinho alli diziam, De que logares estes o trariam?
Que ás Bacchanaes venturas se offerece, De soberbo e altivo borrachão, A quem fortuna em copo favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que a terra não dá vinho ao que parece. Por diante passar determinava Mas impediu-lh'o o vinho que chegava.
Como em terra que tem de vinho abrigo; Mas se tanto bebiam confiavam No Thomé dos Pegões que era amigo. Á desejada venda já chegavam Onde os abraça o seu compadre antigo; E em signal que da vinda se alegrava, Novos vinhos que tinha lhe mostrava.
Adega se passou, aquella gente Pisando a charneca sequiosa Beber deseja d'Evora a agoa-ardente. E chegando á Amieira lamarosa, Onde o caminho vem de Benavente, Se algum licor trazia de Lyeo, Sem gota lhe ficar alli o bebeo.
O grão Francisco ledo consentiu, E uma taça de vinho mui cheiroso Logo sobre elles todos esparsiu. Cada um pelo caminho desgostoso Da rua das adegas se partiu, Providos de beber seus instrumentos Tornaram para os frios aposentos.
Não consintas que bebam por canada; E porque mostres mais tua grandeza, Com pipas, quartos seja agasalhada: Tragam-lhe alguns leitões lá da deveza De conserva azeitona e retalhada, Sardinha de Liceira que é conforme Que a sêde se repare e se reforme.
Vencido d'esta gente e infamado, Bem fôra que aqui Baccho o sustentasse, Que o territorio seu deixa esgotado, Mas esta tenção sua agora passe, Porque em fim vem de estomago danado; E nunca beba mais vinho de Beja Quem do beber alheo tem inveja.
Os vinhos obedecem que encerraste, Se aquelles que em ti buscam refrigerio, Cujo beber soberbo tanto amaste, Não queres que padeçam vituperio, Pois que esta adega hoje lhe mostraste, Não ouças mais, pois bebado és direito, A quem em bebedices é suspeito.
Levantada, de vinho branco e puro, Por dar-lhe de beber a pôz diante De Francisco com taes armas seguro, E dando uma pancada penetrante C'o grande borrachão no sólo duro, O chão tremeu, e um d'elles de torvado, Uma gran vez tomou sobre um bocado.